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sábado, 23 de mayo de 2009

“Os negros lutam suas lutas misteriosas: Bimba é o grande rei negro do misterioso rito africano”.



Reportaje de la década de 40, realizado por Ramagem Badaró (1980: 47-50):
¿Cuál es el toque? - São Bento Grande Repicado, Santa Maria, Ave Maria, Banguela, Cavalaria,
Calambolô, Tira-de-lá-bota-cá, ¿Idalina o Concepción de la Playa? - Bimba pensó rápidamente y
dijo: - Toque Amazonas y después Banguela. Los berimbaus comenzaron a tocar. El criollo se aproximó y Mestre Bimba le estrechó la mano. Y el pueblo comenzó a acompañar el tin-tin-tin de los berimbaus, aplaudiendo. Bimba balanzó el cuerpo y cantó: El día en que yo amanezco, Dentro
de Itabaianinha, Hombre no monta caballo, Ni mujer acuesta gallina, Las monjas que están rezando, Se olvidan de la ladainha. Pero el criollo no se quedó atrás y cantó, bamboleando el cuerpo en el compás de los berimbaus. La iúna es mandinguera, Cuando está en el bebedor, Fue sabia y es ligera, Pero capoeira mató. Palmas festejaron la respuesta del criollo. Sin embargo, Bimba no dio tregua a la victoria del otro. Y respondió: Oración de brazo fuerte, Oración de San Mateo, Para el Cementerio van los huesos, Sus huesos no los míos. Nuevamente el Pueblo aplaudió y cantó el estribillo de la capoeira: Zum, zum, zum, zum, Capoeira mata un, Zum, zum, zum, zum, En el terrero queda uno. El criollo, sin embargo, no dejó caer el cuarteto de Mestre Bimba y replicó: Y yo nací un sábado, El domingo me crié, Y el lunes, La capoeira jugué. La multitud gritó viva y aplaudió a los dos luchadores en el centro del círculo. Una negra comentó: - Buen muchacho! Se es tan bueno en la lucha como lo es en el canto, es bueno para Bimba. […] Había vencido la lucha. El pueblo invadió el terrero aplaudiendo al rey de la
capoeira. Bimba abrazó al adversario. Y el criollo demostró que era verdaderamente un hombre.
Cantó: San Antonio pequeñito, Amansador de burro bravo, Amánsame en capoeira, Con setenta
mil diablos. A Bimba le gustó el elogio y retribuyó, cantando: Yo conocí a un camarada, Que cuando nosotros andemos juntos, No va haber cementerios, Para que quepan tantos difuntos.


libro:BADARÓ, Ramagem. “Os negros lutam suas lutas misteriosas: Bimba é o grande rei negro do misterioso rito africano”. In Capoeiragem - Arte e Malandragem. Jair Moura, ed. Cadernos de Cultura 2. Salvador: Secretaria Municipal de Educação e Cultura, Departamento de Assuntos Culturais, Divisão de Folclore. 43-55, 1944.

miércoles, 1 de abril de 2009

Resúmen cronológico de la Pesquisa:(Revisión 2ª)

Nota del pesquisador:Estimados pesquisadores,en este organigrama ,no se han introducido informaciónes que son óbvias y que todos conocemos,si bién no está completo,ayudará al entendimiento general de los deportes y juegos de lucha en Brasil en la primera mitad del siglo XX.Puede tener algún error debido a la gran cantidad de datos introducidos.Caso de detectar alguno,por favor me lo comuniquen. Un saludo.
Javier Rubiera , email: capoeira.espanha@gmail.com .

P.D.Preçados donhos do malandragem da rua,para min o inicio do Capoeiragem de navalha sao as seguinte citas.Temos um manual (estou com facsimil) com capacidade de crear uma nova especialidade desportiva no interior da Capoieira (FICA).Esperemos que neium mestre empresario pege a ideia e quebre novamente o destino desportivo do capoeiragem de navalha e explote isto económicamente.Brasil nao pode mais consentir isto.

CLAVE: 1890-Incorporación de ARMAS PORTUGUESAS en la capoeira
LIBRO: 1849-Anónimo Manual del baratero,Ficha técnica del facsímil Colección: Libros raros y curiosos ISBN: 978-84-9862-210-2

viernes, 20 de febrero de 2009

Os Desordeiros

Nesta ilustração, de J. Wasth Rodrigues, inserida em O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis de Luís Edmundo, vemos um mestiço capoeira, numa atitude típica, agressiva, e preliminar, quando enfrentava um êmulo: ostentando entre a dentuça a choupa, e desvencilhando-se do manto de saragoça e do chapéu.




DIBUJO:Jornal"O malho" 1904.http://www.capoeira-infos.org/ressources/textes/t_melo_morais_filho.html

FOTO:Capa de Saragoza,típica dos capoeiras de Rio de Janeiro.

Os desordeiros: do mundo do crime ao mundo da cultura
Rodrigo Janiques Vieira
Monografia apresentada para conclusão do curso de licenciatura em História.
Orientador: Professor Dr. Valeriano Altoé


Capoeiras, capoeiras! gente que com a testa faz n´um instante mais espalhafato que meia dúzia de Godans ébrios a jogarem o soco; gente que com a faquinha n´uma mão e o copo na outra afronta o mais intrépido valentão, mete às vezes uma patrulha no chinelo, fazendo-a amolar as gâmbias com a maior frescura do mundo; gente gárrula, provocadora, que só guarda as esquinas ou as praças do mercado, rebuçada às vezes em uma velha capa, trazendo o seu cacetinho por disfarce. Eis os capoeiras!

O CORREIO DA TARDE, Rio de Janeiro, 3/11/1849

2 AS RAÍZES DA CAPOEIRA


......................Demorou algum tempo para que a capoeira escrava do Rio imperial fosse vista pelos olhos de um cronista ou literato. Elísio de Araújo, em seu memorial da polícia carioca, faz uma narrativa brilhante:

A existência da capoeiragem é um fato incontestado na administração policial de Paulo Fernandes Viana. Reunidos nas tabernas, nas mais baixas ruas, ou nos terrenos devolutos, os pretos africanos e os mestiços do país (...) exercitavam-se em jogos de agilidade e destreza corporal, com imenso gáudio dos embarcadiços e marujos, que entre baforadas de fumo, impregnados de álcool, gostosamente apreciavam tais divertimentos. http://books.google.es/books?id=7tLGfv_zQd0C&pg=PA135&lpg=PA135&dq=jogos+de+agilidade+e+destreza+corporal,+com+imenso+g%C3%A1udio+dos+embarcadi%C3%A7os+e+marujos&source=web&ots=P0-1rqaJbU&sig=mIzuD4jnoUikv7adsjokB0hTEn8&hl=es&ei=NtaeSfyZKuKYjAeW8bDLCw&sa=X&oi=book_result&resnum=2&ct=result

Elísio de Araújo ainda descreve, no caso do século XIX, a capoeiragem jogada nos princípios do século, quase cem anos antes. Sua vivaz narrativa detalha como surgiram, posteriormente, as maltas, os temíveis grupos de escravos que assustavam o Rio joanino.


....................Os meados de 1810 assistem o crescimento tenaz da atuação das maltas de capoeiras na cidade, o que resultou em uma grande atividade repressiva por parte da polícia imperial. Os ocorridos ficaram cada vez mais intensos que no decorrer do ano de 1814, aumentam progressivamente e espantosamente as devassas mandadas contra os indivíduos encontrados na posse de navalhas ou acusados de serem os autores dos ferimentos feitos com esta arma.


2.1 Um debate sobre a origem do capoeira

A versão para o berço da capoeiragem partiu do imigrante português Plácido Domingo.Vale ressaltar que esta versão fez escola. É um trabalho difícil estudar a capoeiragem primitiva, porque não é bem conhecida sua origem. “Uns atribuem-na aos pretos africanos, o que julgo um erro, pelo simples fato que na África não é conhecida a nossa capoeiragem, e sim algumas sortes de cabeça.” (Soares, 2001, p. 40).
E o mesmo autor ainda sugere que,

Aos nossos índios também não se pode atribuir porque apesar de possuírem a ligeireza que caracteriza os capoeiras, contudo não conhecessem os meios que estes empregavam para o ataque e a defesa. O mais racional é que a capoeiragem criou-se, desenvolveu-se se aperfeiçoou entre nós.

Foi desta forma que nasceu a versão original e da origem nacional da capoeira, que até os dias de hoje continua sendo um tema polêmico entre os pesquisadores da área.
Algum tempo depois o pesquisador Pires de Almeida, já na onda do resgate da capoeiragem como “ginástica nacional”, no apogeu da belle époque, traduzia o embate das idéias sobre a origem africana.

As origens desse jogo prense-se inquestionavelmente às danças guerreiras de tribos ou nações africanas, quando menos nos lances primitivos como muito bem demonstra a tradição conservada pelas estampas de insuspeitos de viajantes que aqui tivemos. (Soares, 2001, p. 42).


2.2 Etimologia do termo capoeira

O jornal Rio Sportivo, do então Distrito Federal iniciou a publicação de uma série de artigos com o título pitoresco de Capoeiras e capoeiragens http://www.capoeira-infos.org/ressources/textes/t_melo_morais_filho.html . O primeiro artigo pertenceu ao arquiteto e historiador Adolfo Morales de Los Rios Filho. Este usava um refrão que era comum entre os cronistas e homens de letras que discutiam o tema, ele defendeu “a capoeira como arma de defesa pessoal, tão poderosa como o boxe britânico e norte-americano, a savate francesa e parisiense, o jiu-jítsu japonês e a clássica luta romana.” Este resgate era bastante oportuno no momento em que o esporte alcançava cada vez maior público, isso ocorreu primordialmente na capital.


2.2 Etimologia do termo capoeira


..................Aqui ele descreve de forma brilhante o capoeira da primeira metade do século XIX: “Mata-Mouros, freqüentador de tascas, empreiteiro de crimes e surras, auxiliar de políticos, guarda-costas dos homens de prol e guardião das senhoras requestadas pelos “Dom Juan’ cariocas”.
Luís Edmundo reconstrói e projeta uma imagem romântica que tinha feito furor entre os memorialistas do Rio de Janeiro:

Alguns usavam capas de saragoça envolvendo todo o corpo. A maioria de pés no chão, outros calçavam tamancos de alpergatas de palha. Mas todos traziam no pescoço um escapulário com o santo ou santa de devoção ou da sua freguesia. Diante do olhar embasbacado dos circunstantes- soldados, rameiras, pés-rapados, ciganos, lavadeiras, aguadeiros, quitandeiras; o capoeira entra em cena. (Soares, 2001, p. 51).


A capoeira na Armada

Os anos de 1830 foram marcados pelo medo da sublevação militar, tanto como da insurreição escrava. Os motins dos soldados causaram grandes preocupações para a elite política. E, entre os militares de baixa patente que traziam dor de cabeça, para os governadores, estavam os marujos da Armada.
Os marinheiros eram tidos como notórios arruaceiros e fator de desordem nas cidades costeiras. Acostumados a um regime de extrema violência a bordo, estavam calejados para enfrentar a truculência cotidiana da polícia, quando desembarcavam de folga. (Soares, 2001, p. 291). A capoeira deveria ser um instrumento eficiente para lidar com os magotes policias que circulavam pela cidade à noite.


................Os capoeiras também tinham a noite como momento preferido para reuniões e atividades, decerto para escapar da vigilância policial. Muitas vezes, o capoeira e o marujo habitavam o mesmo indivíduo.

Ontem às 9 horas da noite foi preso no meu distrito o preto Firmino, que diz ser forro e ter praça de marinheiro a bordo da Escuna de Guerra Itaparica por estar com outros pretos de capoeiragem, de que está ferido na cabeça, e já o mandei curar e o remeto a V. Exc. para que, sendo verdade o que diz, lhe dê destino e, quando não, o fará regressar para este juízo a se fazerem as indagações necessárias.


É claro que tais braços eram obtidos da forma mais violenta e arbitrária possível, aprisionando todos os que fossem encontrados vagando, mesmo marinheiros empregados em navios mercantes, e os levando à força para a Armada. A intenção da polícia, era tão somente, capturar tantos marinheiros quanto fosse possível e engajá-los contra a sua vontade na guerra.
É interessante o número de desertores na Marinha de Guerra. A experiência da fuga, desta forma era mais um mecanismo compartilhado por escravos, capoeiras e marinheiros, “deve ter estreitado laços de camaradagem, mesmo com marujos estrangeiros.”, como apontou Manolo.


http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/hrio02.htm

jueves, 15 de enero de 2009

Capoeira dura




Alguns desses homens excepcionais:
Nascimento Grande (no Rio, 1935) era um pernambucano de elevada estatura, exímio “bengalista”. Bengalista era o jogador de bengala, “instrumento de trabalho” com que os antigos capoeiristas substituíam os dois paus, a faca e o facão. No ambiente urbano , a bengala não era tão “evidente” como instrumento de agressão. Não se tratava porém de uma bengala qualquer. Eram bengalas lavradas em madeiras de lei. Pesavam aproximadamente, com seu miolo de chumbo, ¼ e meia arroba (4kg; 7,5 kg). Nascimento Grande veio “fugido” para o Rio de Janeiro, segundo diziam no meio, porque estaria “jurado de morte” pelos “coronéis” pernambucanos que dominavam a Secretaria de Segurança de lá. Morou em Jacarepaguá, onde costumava receber visitas de seus amigos e admiradores, promovendo-se, nessas ocasiões, “rodas”. Nascimento costumava, no seu dizer, “despachar os inconvenientes”, com uma ou duas bengaladas. Raramente, dizia ele, havia aplicado uma terceira..
Dizia-se do “turco” Mamede que era neto de africano por parte de mãe e o pai seria sírio-libanês. Aprendeu capoeira na sua infância, quando trabalhava como auxiliar de taxista (atenção; veículo a tração animal) na Lapa e no Largo da Carioca. Foi também carregador no porto (estiva). Sua característica seria o jogo com dois punhais, ou um punhal e uma faca. Exímio na “raiz” (golpe extinto).
O “Quebra-Côco” era um “mulato” pernambucano, ativo na área do então morro de Santo Antônio e no Castelo (1910-30). Mortal cabeceiro, ainda era reverenciado muito após sua morte, nos anos 50.
Cazuza, que cheguei a conhecer, era um pernambucano ou alagoano de baixa estatura, cerca de 1,60m. Freqüentava terreiros-de-santo em Botafogo e em subúrbios, quando mais idoso (1940-60). Silencioso, modesto, não falava de seus possíveis feitos, mas apenas sobre outras pessoas. No entanto mesmo idoso, sem apresentar ser o que dele se dizia, carregava consigo três punhais à cinta e duas navalhas no bolso da camisa. As navalhas ficavam encobertas por cigarreira de metal , mas ninguém, parece-me, via Cazuza fumar.
Sinhô era um capoeira baiano que praticava o “jogo duro”. Foi amigo e contemporâneo do famoso Ciríaco. Era geralmente comparado a este, com Pedro Lele, Nenem, Manduca da Praia, ou seja, com os melhores capoeiristas do Rio de Janeiro. Pedro Lele (1910-1925) era um tanto mitológico na capoeira carioca. Foi dono de um terreiro em Bonsucesso, e uma vez por ano oferecia uma peixada na rua, servida no logradouro onde morava. Sobre ele contam estórias, cenas de maldade e grandeza, que, incríveis, não se pode dizer se reais ou imaginadas.
Ciríaco (1908-30) derrotou os portugueses campeões de “braço-de-ferro” no Rio de Janeiro; venceu, na mesma prática, mestre francês de halterofilismo (pudiera ser Paul Pons)que ensinava aos filhos da elite. Conta-se, que ao vergar o braço direito deste professor de ginástica, pediram-lhe para disputar com o esquerdo. Ao dobrar-lhe o braço esquerdo, teria arrastado o oponente sobre a mesa e dito “Que pouca porcaria”. Valendo-se de sua força e agilidade, matou vários oponentes em lutas corporais. Derrotou dois mestres orientais de passagem pelo Rio, em épocas distintas. Dizia-se que colocava sobre a cabeça de uma só vez três ou quatro sacas de café.
Nenem (1910-30), considerado exímio capoeira, era possuidor de movimentos imprevisíveis e fôlego de gato. Teria sido morto com um tiro de arma longa, desfechado a certa distância, pelas costas. Certamente, devido ao temor do assassino em chegar-lhe perto.
Nego Treze (1905-1920) foi “segurança” de cabarés, cassino, pessoas com poder político e do submundo. Era jogador de todos os jogos de azar, sendo bem sucedido nestas artes. O pai de Nego Treze era português, o que significava que era mestiço. Sua característica na capoeira era combinar saltos contínuos e imprevisíveis, explosão de velocidade, mestria no desfecho rápido.
Sinhôzinho (1925-68?), baiano, tornou-se lentamente referência da capoeira carioca. Morreu atropelado em circunstância não esclarecida, quando se dirigia à sua academia do Leblon. Ex-estivador, respeitado pela polícia, foi instrutor da Marinha e ensinou a filhos da burguesia e pequena burguesia.
No círculo de nossa gente não interessava quem era quem, desde que fosse “nosso”. Na roda, respeitava o lele, e as normas que ele impunha. Vê-se, por isso, criminosos famosos, como Nego 13, Sete Coroas e Camisa Preta serem conhecidos também como “bambas”, ou seja, “lele”.
“Lele” no Rio de Janeiro também é masculino de “iaiá:, sendo esta “senhora”, será aquele “senhor”, ou “chefe”.
http://74.125.77.132/search?q=cache:M4gSkPDj-iAJ:dnbwilson.googlepages.com/ACapoeiraDuraeaReligioAfro-Brasileir.doc+Valente+tamb%C3%A9m+foi+um+negro+capoeirista+conhecido+por+Cir%C3%ADaco&hl=es&ct=clnk&cd=10

viernes, 9 de enero de 2009

O VELHO FÉLIX E SUAS "MEMÓRIAS DE UM CAVALCANTI"-Capoeiragem

O VELHO FÉLIX E SUAS "MEMÓRIAS DE UM CAVALCANTI"
Fonte: FREYRE, Gilberto. O Velho Félix e suas "memórias de um Cavalcanti". Rio de Janeiro: José Olympio, 1959. 142p.
No tempo de Félix a capoeiragem ostentava ainda todo o seu viço; e da Rua da Jangada e Gameleira estavam sempre descendo rêdes não só de bexiguentos como de feridos. Rêdes brancas de mortos. Rêdes vermelhas de gente esfaqueada e gemendo: quero água, quero água! Mal começara a campanha do Inspetor José de Lima e dos seus soldados de facão rabo-de-galo contra os reis a faca de ponta protegidos e até compadres de José Mariano e de outros políticos importantes; gente arranchada pelos mucambos e "quadros" de São José, de Santo Amaro, do Coculo, da Aldeia do Quatorze, da ilha das Ostras, dos Sete Mucambos, do Pombal, do Lucas.
A capoeiragem eram então uma fôrça a serviço da política partidária, tão intensa no Recife do século XIX. O burgo lìricamente comparado pelo poeta a Veneza:
"Veneza americana boiando sôbre as águas"
Era naqueles dias e tem sido quase sempre antes uma Florença que uma Veneza. Florença americana ardendo no fogo das revoluções, das lutas entre partidos, das revoltas de cavalgados contra Cavalcantis, dos combates entre bianchi e neri. Se a capoeiragem é, com pretende Adolfo Morales de Los Rios Filhos, "uma criação dos fracos - o negro e o mestiço - contra o forte, isto é, o branco", onde ela se apurou melhor que no Recife de cavalgados contra Cavalcantis: que nesta nossa Florença americana de cabras afoitos e de negros arreliados, ao serviços de vagas reivindicações políticas, encarnadas ora por um Pedroso, ora por um Nunes Machado ou por um José Mariano e a encobrirem aspirações sociais também um tanto imprecisas, turvadas por muito ressentimento de natureza pessoal, mas no fundo sociais?
Capoeiras negros e mulatos, cabras ligeiros na arte da rasteira, do rabo-de-arrais, do arrastão, no manejo do cacête, da navalha, da faca de ponta, tornaram-se guarda-costas não só de homens do govêrno mais violentos como de políticos oposicionistas mais irrequietos. Os capoeiras do Recife, como os do Rio, eram quase sempre mulatos de gaforinha, andar gingado, lenço encarnado no pescoço. Por debaixo da camisa, raro era o que não levasse oração fechando-lhe o corpo às balas da polícia e às facas dos outros cabras. Às vêzes ostentavam tatuagens no peito, no braço ou noutras partes do corpo: corações, signo-salmão, âncoras, sereias e nomes de mulheres. Quase todos gostavam de sua branquinha ou aguardente de cana; de seu violão; de ostentar seu dente de outro; e todos tinham nomes de guerra pitorescos: Canhoto, Sabe-Tudo, Bode-Ioiô, Pé-de-Pilão, Rabo-de-Arraia, Bentinho do Lucas, Nascimento Grande.
Nascimento Grande foi o último grande capoeira do Recife: morreu há três quatro nos, já velho e doente, no Rio de Janeiro, num sítio de Jacarepaguá onde o acolhêra José Mariano Filho. Passara da Monarquia à República; eu próprio ainda ovi, com olhos de menino de onze anos, seguindo como guarda-costas o carro triunfante - carro aberto, a capota arriada - em que o General Dantas Barreto, duro, pequeno e de pince-nez, entrou em 1972 no Recife ao som da Vassourinha:
"Salvai, salvai, querido general !"
http://www.bvgf.fgf.org.br/frances/obra/livros/pref_brasil/o_velho.htm
http://www.bvgf.fgf.org.br/portugues/obra/livros/pref_brasil/o_velho.htm
OTRA CITA: http://www.bvgf.fgf.org.br/portugues/obra/artigos_imprensa/velho_felix.htm

viernes, 28 de noviembre de 2008

Citas sobre Capoeiras

Conjunto documental: Relação de presos feitos na PolíciaNotação: códice 403, vol. 01Data-limite: 1812-1816Título do fundo: Polícia da CorteCódigo do fundo: ØEArgumento de pesquisa: Ementa: registro da prisão dos escravos, Felipe Lebolo, Manoel Benguela, José Benguela, Serafim Congo e Augusto Angola, todos por praticarem a capoeira, fazendo tal desordem que quebraram a perna de um negro que teve seu nome ignorado. Data do documento: 5 de junho de 1811Local: Rio de JaneiroFolha(s): 8
Conjunto documental: Registro de ofícios da Polícia ao comandante da Real e depois Imperial Guarda da PolíciaNotação: códice 327, vol. 01Data-limite: 1811-1815Título do fundo: Polícia da CorteCódigo do fundo: ØEArgumento de pesquisa: quilombosEmenta: registro feito por Paulo Fernandes Vianna, intendente de polícia, para o coronel José Maria Rebello de Andrade Vasconcelos e Souza, primeiro comandante da guarda real de polícia da corte, informando o reaparecimento dos negros capoeiras na cidade, trazendo desordens para diversos lugares. O intendente pede que o rei mantenha escoltas, principalmente nos dias santos, para que sejam presos todos que forem encontrados não só jogando mas também envolvidos em desordens.Data do documento: 6 de abril de 1816Local: Rio de JaneiroFolha(s): 67
Conjunto documental: Registro de ofícios da Polícia ao comandante da Real e depois Imperial Guarda da PolíciaNotação: códice 327, vol. 01Data-limite: 1811-1815Título do fundo: Polícia da CorteCódigo do fundo: ØEArgumento de pesquisa: quilombosEmenta: ofício de Paulo Fernandes Vianna, intendente de polícia, para o brigadeiro José Maria Rebello de Andrade Vasconcelos e Souza, primeiro comandante da guarda real de polícia da corte, informando que no adro do palácio episcopal, costumava durante a noite juntarem-se negros fugidios e marinheiros para fazerem desordens, permanecendo ali até o amanhecer. O intendente pede que sejam mandados oficiais para este local á noite e que prendam todos que forem encontrados neste local.Data do documento: s.dLocal: Rio de JaneiroFolha(s): 83
http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?from%5Finfo%5Findex=6&infoid=777&query=simple&search%5Fby%5Fauthorname=all&search%5Fby%5Ffield=tax&search%5Fby%5Fheadline=false&search%5Fby%5Fkeywords=any&search%5Fby%5Fpriority=all&search%5Fby%5Fsection=all&search%5Fby%5Fstate=all&search%5Ftext%5Foptions=all&sid=64&text=capoeira

capoeiragem

dibujo:sin fuente.
Poucos documentos serão mais reveladores dos complexos quadros sociais e da vida cotidiana das pessoas de todos os escalões sociais do que aqueles gerados pela polícia da Corte, instituição criada por despacho de dom João para comemoração de seu natalício, em 13 de maio de 1809. O registro da correspondência da polícia (códice 323, v. 1-4, 1809-1820), o registro de ofícios da polícia ao comandante da real e depois imperial guarda da polícia (códice 327, v. 1, 1815-1831), o registro de ordens e ofícios da polícia aos ministros criminais dos bairros e comarcas da corte (códice 329, v. 1-5, 1811-1824) e as relações de presos feitos na polícia (códice 403) guardam verdadeiros diamantes sobre o cotidiano da Corte, as festas, a vida em torno do teatro, as celebrações religiosas, a presença dos negros e a miríade de pequenos e graves delitos cometidos nas ruas, desde brigas, embriaguês, jogos de casquinha, capoeiragem, prática muito mal vista pelos governantes fluminenses.
http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=727&query=simple&search%5Fby%5Fauthorname=all&search%5Fby%5Ffield=tax&search%5Fby%5Fheadline=false&search%5Fby%5Fkeywords=any&search%5Fby%5Fpriority=all&search%5Fby%5Fsection=all&search%5Fby%5Fstate=all&search%5Ftext%5Foptions=all&sid=94&text=capoeira
Vários documentos relatam ferimentos graves imputados a cidadãos, mas há também relatos de abusos cometidos pelos próprios policiais, como no ofício de Paulo Fernandes Viana ao comandante da Guarda Real José Maria de Andrade Vasconcelos e Souza, no qual soldados, ao realizarem uma prisão, teriam espancado João Justino e o levado sem roupas ao quartel do campo (códice 323, v. 2, f. 9 a 10).Outras formas de transgressões eram relatadas: homicídios, como o caso da morte de um negro cujo corpo já decrépito fora encontrado nos fundos de uma chácara do Engenho Velho (códice 329, v. 3); vadiagem, como o curioso registro de prisão contra o espanhol José Consuelo, que achava-se na rua “fazendo-se suspeitoso” por estar vestido de mulher (códice 401). Eram igualmente da alçada da Polícia ações envolvendo escravos (fugas, revoltas, alforrias e a prática da capoeira), a mendicância, a embriaguez, os jogos e os movimentos políticos. Ou seja, praticamente tudo que envolvesse a ordenação e o funcionamento da sociedade carioca oitocentista, era de responsabilidade da Polícia da Corte.
http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=209&query=simple&search%5Fby%5Fauthorname=all&search%5Fby%5Ffield=tax&search%5Fby%5Fheadline=false&search%5Fby%5Fkeywords=any&search%5Fby%5Fpriority=all&search%5Fby%5Fsection=all&search%5Fby%5Fstate=all&search%5Ftext%5Foptions=all&sid=90&text=capoeira

jueves, 28 de agosto de 2008

BRASIL - Notas para a história da capoeira em Sorocaba (1850 – 1930)

foto:Dioguinho,Bandido e Capoeira Paulista de 1850: http://saladepesquisacapoeira.blogspot.com/2008/08/dioguinhoun-bandido-capoeira-de-sao.html
A notícia mais antiga que se tem da capoeira na cidade de Sorocaba é a edição do Código de Posturas da Câmara Municipal, datado de 1850, e que trata, em seu artigo 151, da proibição dessa luta. O enunciado do artigo é o seguinte:
“Toda a pessoa que nas praças, ruas, casas públicas, ou em qualquer outro lugar tão bem público praticar ou exercer o jogo denominado de Capoeiras ou qualquer outro gênero de luta
, sendo livre será preso por dois dias, e pagará dois mil reis de multa, e sendo cativa será preso, e entregue a seu senhor para o fazer castigar naquela com vinte cinco açoites e quando não faça sofrerá o escravo a mesma pena de dois dias de prisão e dois mil réis de multa” [1].
Desse texto legal se depreende que os legisladores sorocabanos, que refletiam a mentalidade da classe dominante, conheciam da existência da capoeira e que a mesma era (ou poderia ser) praticada por brancos e negros, homens livres e escravos; não sendo, portanto, exclusividade de uma classe específica. Outro aspecto importante é que a prática da capoeira já estava relacionada com o aspecto lúdico, eis que era conhecida como jogo, embora fosse reconhecida como luta, conforme explicita o próprio texto da lei: “...ou qualquer outro gênero de luta...”. Também é interessante notar que a intenção de punir era irrestrita (não obstante as punições aos homens livres fossem mais brandas), o que pode significar que a prática da capoeira era considerada nociva não somente porque dela poderia se utilizar o escravo a fim de combater a opressão. Desse modo é questionável até mesmo a concepção de que a capoeira tenha servido exclusivamente de luta do escravo pela sua libertação.
As leis municipais de Sorocaba repressivas à prática da capoeira continuaram sendo editadas nas Posturas Municipais durante as décadas subseqüentes. Em 1865 o tópico referente à proibição da capoeira figurou no artigo 127:
“Toda e qualquer pessoa que em praças, ruas, ou outro qualquer lugar exercer o jogo denominado capoeiras, ou qualquer outra luta, será multado em 4$ e dois dias de prisão [2]”.
O texto mais sucinto e genérico não discrimina os participantes do jogo da capoeira, nem mesmo distingüe a penalização, permanecendo, no entanto, a concepção da prática como jogo. Em 1871, o artigo 73 do Código de Posturas da Cidade de Sorocaba apresenta o seguinte texto:
“Jogar capoeiras ou qualquer genero de luta em publico: penas, 4$ de multa e 2 dias de prisão [3]”.
Já em 1882 o termo “capoeiras” deixa de figurar no texto legal:
“Art. 72. É prohibido jogar pelas ruas e lugares públicos qualquer espécie de jogos ou luta, os infractores incorrerão na multa de vinte mil réis e cinco dias de prisão”. [4]
A imprensa sorocabana do século XIX registrou inúmeros eventos relativos a valentões e desordeiros, algumas evidências a lutas, sem que houvesse, entretanto, uma descrição clara desses eventos e que indicasse nomes de capoeiristas. Uma notícia interessante, colhida no Diário de Sorocaba, em 1887, diz:
"Carteira da Polícia
À ordem do sr. delegado de polícia, foi a 16 do corrente recolhido à cadeia João de Almeida, vulgo Brizolla, por provocar desordens.
—À mesma ordem, no mesmo dia e pelo mesmo motivo foi recolhido o preto Antônio José da Silva, que trouxe mais agravante de, no corredor do mosteiro de São Bento fazer um grande rolo.
Ahi está no que dão os valentões" [5].
A palavra rolo, que os dicionários atuais apresentam como sendo sinônimo de confusão ou perturbação da ordem, era, no século XIX, comumente associada a tumultos provocados pelos capoeiras ou por suas maltas. Artur Azevedo, na opereta O barão de Pituaçu, narra a conversa de um capoeira:
José: — Não é partido político, não sinhô. Como político, eu sou republicano. É partido de capoeirage. Eu sou guaiamu.
Bermudes: — Tu é o quê, moleque do diabo?
José: — Guaiamu, legítimo guaiamu, de princípios. Esse partido é a facção mais adiantada da flor da gente. Quando houver rolo, hei de convidar o Sinhô Bermudes.
Bermudes: — Apois.
José: — Verá como eu sei entrar bonito. (Fazendo uns passes de capoeira.)
Bermudes:— Pra lá, moleque! [6]
A mesma conotação parece ter a palavra rolo em Pernambuco, no século XIX, segundo a informação de Mário Sette:
Acompanhando o desfile das bandas musicais do Recife desde os primeiros anos da segunda metade do século XIX, o nosso capoeira era, no dizer de Mário Sette, figura obrigatória à frente do conjunto "gingando, piruteando, manobrando cacetes e exibindo navalhas. Faziam passos complicados, dirigiam pilhérias, soltavam assobios agudíssimos, iam de provocação em provocação até que o rolo explodia correndo sangue e ficando os defuntos na rua". (Recife, Pernambuco, 2004).
No começo do século XX as notícias sobre desordeiros e indisciplinados (neste último caso, soldados – das armas ou da polícia), armados de navalhas é constante. A navalha, segundo Melo Morais Filho, era uma das armas preferidas pelos capoeiristas.
A navalha e um cacete, que nunca excede de cinqüenta centímetros, preso ao pulso por uma fina corda de linho, eram-lhe as armas prediletas, nunca fazendo uso das de fogo [7].
Dentre as notícias de portadores de navalha, como arma, há a de um soldado “indisciplinado” que foi preso em Sorocaba. Eis a notícia:
"Indisciplinado
Hontem, pelas 4 e 45 da tarde o praça do destacamento local de nome Francisco Cândido dos Santos, nº 111, da 4ª Companhia do 3º batalhão, sendo reprehendido pelo Commandante, revoltou-se contra este e, puchando por uma navalha, desafiou a todos que o prendessem. O Commandante, então, ordenou sua prisão o que foi conseguido a muito custo. O soldado Marcos Antônio Moreira foi ferido com uma navalhada pelo soldado indisciplinado. O sr. dr. Delegado fez lavrar auto de prisão em flagrante e vae instaurar o competente processo" [8].
Na década de 1920 as notícias sobre a capoeira em Sorocaba aparecem com mais clareza, informando, com alguns detalhes, sobre a existência do jogo e da prática dessa luta. Uma das publicações nos jornais sorocabanos alerta para a existência de um barbeiro no início do século XX, cujo salão estava localizado na rua Direita (hoje boulevard Doutor Braguinha), e que seria um “capoeira ‘desconjuntado’”. É esta a nota:
Meus reparos
Assisti aos festejos do 13 de Maio. Estiveram assim... Parabéns ao Daniel de Moraes, a quem se deve o não ter ficado “em branco”, a data. Vendo passar os manifestantes, conduzidos pela palavra do Ramiro Parreira, vieram-me á mente scenas dos 13 de Maio de alguns annos atraz, uns 20 talvez, época em que tínhamos aqui diversos oradores fogósos entre os homens de côr. Destes o mais enthusiasmado e verborrhagico era o popular Benedicto Gostoso, mulato escuro, physionomia viva, cabello encaracolado e repartido “de banda”, capoeira “desconjuntado” e barbeiro de profissão. Era proprietário de um salão alli na rua Direita onde hoje se ergue um sobradinho, e á porta lia-se em um cartaz dom letras enormes:
SALÃO DO NORTETHESOURA SEM PONTANAVALHA SEM CORTE
Mas se o Gostoso era hábil no desbastar uma gaforinha, os seus maiores êxitos eram numa tribuna popular a Treze de Maio. Ante a multidão ávida dos seus arroubos oratórios, tomava attitudes empolgantes e “soltava o verbo”: “Os escravos, meus senhores, vinham para o Brasil em grandes ‘trasatraticos’”. Mais adeante: “O dr. Antônio Bento, senhores, era um homem tão importante, mas tão importante mesmo, que nem devia ser “doutor” mas sim ‘coronel da Guarda Nacional’”. E por ahi seguia. K.D.T." [9]
O articulista acima, que assina por iniciais, reportou-se a fato ocorrido cerca de 20 anos antes, o que nos remete a data aproximada de 1907. Benedicto Gostoso era residente e estabelecido em Sorocaba. É provável que outros capoeiristas tenham sido seus contemporâneos nessa mesma cidade.
Em 1914 é veiculada na imprensa sorocabana uma nota ligando a capoeira com a prática de desordens, ou, em outras palavras, a capoeira como prática comum de desordeiros:
"Notas policiaes
(...) Foram presos hoje as 10 ½ por estarem promovendo graves desordem na Rua do Votorantim, os incorrigíveis valientes, Olympio Monteiro e Antônio Francisco da Silva (vulgo Grão de Bico) sendo que este armado de uma enorme pernambucana tentou ferir o primeiro. Mas Olympio num zig-zag de verdadeiro capoeira soube desviar os golpes contra elle dirigidos e em sua defesa descascou no “purungo” do “Grão de Bico” a cacetadas." [10]
Ainda sobre a década de 1920 mais duas notícias da imprensa escrita autorizam a afirmação da inquestionável existência de capoeiras em Sorocaba. Uma delas, trata de um sutil comentário do jornalista acerca de fato policial de ordem doméstica:
"Factos policiais no Bom Jesus
Jovita da Silva levou á autoridade do districto, queixa seu marido, que a esmurra. Jovita declarou á autoridade que, por sua vez, enfrenta o marido, passando-lhe rasteiras. Se é assim, não há de que zangar-se a Jovita, que se diverte em capoeiragem com o inexperto marido..." [11]
Mesmo que a própria nota não afirme a prática da capoeira, antes condiciona o comentário à informação prestada pela queixosa; o texto serve para demonstrar que, ao menos no senso comum, em Sorocaba existia uma vaga noção do que seria a capoeira: uma luta (usada como defesa, talvez), em que se utiliza a habilidade de golpes de perna, especialmente a rasteira.
A outra notícia é mais esclarecedora, fornecendo alguns outros dados, a despeito de ter redação parcimoniosa:
"Delegacia RegionalBrincadeira desastrada
No páteo da estação Sorocabana os operários Joaquim Diniz Costa e Orlando di Fogni brincavam de “capoeira”, cada qual empunhando sua faca, quando por uma rasteira errada ambos cahiram, ferindo se também cada qual com sua faca.
A polícia teve conhecimento do facto." [12]
Dessa notícia conclui-se que a capoeira em Sorocaba era uma luta associada à disputa de dois oponentes (por inferência, não havia disputa coletiva – um grupo contra outro ou porfia entre duplas, trios etc...). O fato de ser um desafio de habilidades e não uma desavença é o que se depreende do termo “brincadeira”, utilizado pelo redator da notícia. Também se observa que o jogo da capoeira aparentemente não era acompanhado por música. O uso de golpes de pés, como a rasteira, é outra informação presente, bem como o fato de estar sendo a capoeira brincada por operários, um dos quais, provavelmente, de origem italiana. A preferência das classes populares pela capoeira é reconhecida pelo Mestre Pastinha:
"Não vai muito longe o tempo em que a Capoeira sofria séria repressão por parte das autoridades que não visavam, evidentemente, terminar com a Capoeira, mas, evitar que indivíduos de mau caráter dela se valessem para a prática de agressões e desordens, pois, o aprendizado da capoeira congregava as classes mais humildes do povo." [13]
A partir do surgimento de novos documentos, de outras informações, a história da capoeira em Sorocaba começa a tomar forma e apontar para outros horizontes. Fugindo da debilidade das discussões regionalistas, esses fatos contribuem para a compreensão do etos e das relações sociais e étnicas que se desenvolveram na cidade de Sorocaba, além de fornecer elementos interessantes para a própria história da capoeira. A capoeira deve ser estudada e entendida como um fenômeno antropológico, o qual só foi gestado e evoluiu por uma necessidade humana conjugada com o tempo e o espaço.
Assim, entender a existência da capoeira num local é compreender a vasta complexidade das etnias que contribuíram para a sua formação, a expressão ritualística do gestual – tão próprio das tribos bantus – que caracteriza uma procura por uma identidade; a busca pela perfeição dos movimentos como forma de destaque e status social (o capoeira acaba ganhando a sua fama através das suas habilidades demonstradas e provadas na roda de capoeira); a exclusão social que forçou as classes sociais mais baixas a buscarem divertimentos – como a capoeira – por não ter acesso a outras formas de lazer...
A aparente falta de uma sistemática perseguição policial, durante a República Velha, ao contrário do que se deu em outras localidades, sobretudo no Rio de Janeiro, demonstra certa tolerância com esse costume. Porém, durante o Império a iniciativa de combater o exercício da capoeira em Sorocaba partiu dos próprios legisladores. É uma história que se desvenda diariamente e que no mesmo ritmo se reescreve.
07 de setembro de 2004

Bibliografia
Almeida, Aluísio de. Sorocaba: três séculos de história. Itu, Ed. Ottoni, 2002.
Areias, Almir das. O que é capoeira. 2ª ed. São Paulo, Ed. Brasiliense, 1984.
Araújo, Paulo Coelho de. Abordagens sócio-antropológicas da luta/jogo capoeira: A transformação de uma atividade guerreira numa atividade lúdica. Publismai, 1997.
Azevedo, Artur. O barão de Pituaçu: opereta em quatro atos, 1887.
Cavalheiro, Carlos Carvalho. "Apontamentos para a história da capoeira em Sorocaba". A Nova Democracia. Rio de Janeiro, nº 18, maio de 2004.
Morais Filho, Alexandre José de Melo. Festas e tradições populares do Brasil. Brasília, Conselho Editorial do Senado, 2002.
Pastinha, Vicente Ferreira, mestre. Capoeira Angola. 2ª ed., 1968.
Pinsky, Jaime. A escravidão no Brasil. Ed. Global.
Recife – Pernambuco. Capoeiras de ontem, passistas de hoje. Disponível em: http://www.recife.pe.gov.br/especiais/brincantes/7b.html. Acesso em: 25 de janeiro de 2004.
Notas
1. O texto dessa lei é muito similar ao de outras leis em várias localidades, editadas do começo a meados do século XIX. É o caso da Postura Municipal da Câmara Municipal da cidade de São Paulo, datada de 1833, citada por Paulo Coelho de Araújo.
2. Câmara Municipal de Sorocaba. Posturas da Câmara Municipal da cidade de Sorocaba acompanhadas do regulamento par o cemitério da mesma cidade. São Paulo, Tipografia Imparcial, 1865.
3. Câmara Municipal de Sorocaba. Código de Posturas da Câmara Municipal da cidade de Sorocaba. Sorocaba, Tipografia Americana, 1871.
4. Câmara Municipal de Sorocaba. Código de Posturas da Câmara Municipal da cidade de Sorocaba com regulamentos para a Praça do Mercado e Cemitério, Annexos. Sorocaba, Tipografia Americana, 1882.
5. Diário de Sorocaba. 18 de outubro de 1887, p.03.
6. Azevedo, Artur. O barão de Pituaçu : opereta em quatro atos, 1887.
7. Morais Filho, Alexandre José de Melo. Festas e tradições populares do Brasil. Brasília, Conselho Editorial do Senado, 2002.
8. Cruzeiro do Sul, 29 de julho de 1909, p.2. Notícia encontrada pela historiadora Adilene Ferreira Carvalho Cavalheiro.
9. Cruzeiro do Sul, 18 de maio de 1927, nº 6151, p.2.
10. Diário de Sorocaba, 21 de janeiro de 1914, nº 10, p.1.
11. Cruzeiro do Sul, 03 de abril de 1927, nº 6116, p.1
12. Cruzeiro do Sul, 08 de fevereiro de 1927, 6072, p.4.
13. Pastinha, Vicente Ferreira. Capoeira Angola. 2ª ed., 1968.

* Escritor, historiador e pesquisador do folclore paulista. Sócio efetivo da Comissão Paulista de Folclore (IBECC/UNESCO). Autor dos livros: Folclore em Sorocaba (1999) e Descobrindo o folclore (2003). Texto enviado em colaboração à Jangada Brasil.