jueves, 15 de enero de 2009

Capoeira dura




Alguns desses homens excepcionais:
Nascimento Grande (no Rio, 1935) era um pernambucano de elevada estatura, exímio “bengalista”. Bengalista era o jogador de bengala, “instrumento de trabalho” com que os antigos capoeiristas substituíam os dois paus, a faca e o facão. No ambiente urbano , a bengala não era tão “evidente” como instrumento de agressão. Não se tratava porém de uma bengala qualquer. Eram bengalas lavradas em madeiras de lei. Pesavam aproximadamente, com seu miolo de chumbo, ¼ e meia arroba (4kg; 7,5 kg). Nascimento Grande veio “fugido” para o Rio de Janeiro, segundo diziam no meio, porque estaria “jurado de morte” pelos “coronéis” pernambucanos que dominavam a Secretaria de Segurança de lá. Morou em Jacarepaguá, onde costumava receber visitas de seus amigos e admiradores, promovendo-se, nessas ocasiões, “rodas”. Nascimento costumava, no seu dizer, “despachar os inconvenientes”, com uma ou duas bengaladas. Raramente, dizia ele, havia aplicado uma terceira..
Dizia-se do “turco” Mamede que era neto de africano por parte de mãe e o pai seria sírio-libanês. Aprendeu capoeira na sua infância, quando trabalhava como auxiliar de taxista (atenção; veículo a tração animal) na Lapa e no Largo da Carioca. Foi também carregador no porto (estiva). Sua característica seria o jogo com dois punhais, ou um punhal e uma faca. Exímio na “raiz” (golpe extinto).
O “Quebra-Côco” era um “mulato” pernambucano, ativo na área do então morro de Santo Antônio e no Castelo (1910-30). Mortal cabeceiro, ainda era reverenciado muito após sua morte, nos anos 50.
Cazuza, que cheguei a conhecer, era um pernambucano ou alagoano de baixa estatura, cerca de 1,60m. Freqüentava terreiros-de-santo em Botafogo e em subúrbios, quando mais idoso (1940-60). Silencioso, modesto, não falava de seus possíveis feitos, mas apenas sobre outras pessoas. No entanto mesmo idoso, sem apresentar ser o que dele se dizia, carregava consigo três punhais à cinta e duas navalhas no bolso da camisa. As navalhas ficavam encobertas por cigarreira de metal , mas ninguém, parece-me, via Cazuza fumar.
Sinhô era um capoeira baiano que praticava o “jogo duro”. Foi amigo e contemporâneo do famoso Ciríaco. Era geralmente comparado a este, com Pedro Lele, Nenem, Manduca da Praia, ou seja, com os melhores capoeiristas do Rio de Janeiro. Pedro Lele (1910-1925) era um tanto mitológico na capoeira carioca. Foi dono de um terreiro em Bonsucesso, e uma vez por ano oferecia uma peixada na rua, servida no logradouro onde morava. Sobre ele contam estórias, cenas de maldade e grandeza, que, incríveis, não se pode dizer se reais ou imaginadas.
Ciríaco (1908-30) derrotou os portugueses campeões de “braço-de-ferro” no Rio de Janeiro; venceu, na mesma prática, mestre francês de halterofilismo (pudiera ser Paul Pons)que ensinava aos filhos da elite. Conta-se, que ao vergar o braço direito deste professor de ginástica, pediram-lhe para disputar com o esquerdo. Ao dobrar-lhe o braço esquerdo, teria arrastado o oponente sobre a mesa e dito “Que pouca porcaria”. Valendo-se de sua força e agilidade, matou vários oponentes em lutas corporais. Derrotou dois mestres orientais de passagem pelo Rio, em épocas distintas. Dizia-se que colocava sobre a cabeça de uma só vez três ou quatro sacas de café.
Nenem (1910-30), considerado exímio capoeira, era possuidor de movimentos imprevisíveis e fôlego de gato. Teria sido morto com um tiro de arma longa, desfechado a certa distância, pelas costas. Certamente, devido ao temor do assassino em chegar-lhe perto.
Nego Treze (1905-1920) foi “segurança” de cabarés, cassino, pessoas com poder político e do submundo. Era jogador de todos os jogos de azar, sendo bem sucedido nestas artes. O pai de Nego Treze era português, o que significava que era mestiço. Sua característica na capoeira era combinar saltos contínuos e imprevisíveis, explosão de velocidade, mestria no desfecho rápido.
Sinhôzinho (1925-68?), baiano, tornou-se lentamente referência da capoeira carioca. Morreu atropelado em circunstância não esclarecida, quando se dirigia à sua academia do Leblon. Ex-estivador, respeitado pela polícia, foi instrutor da Marinha e ensinou a filhos da burguesia e pequena burguesia.
No círculo de nossa gente não interessava quem era quem, desde que fosse “nosso”. Na roda, respeitava o lele, e as normas que ele impunha. Vê-se, por isso, criminosos famosos, como Nego 13, Sete Coroas e Camisa Preta serem conhecidos também como “bambas”, ou seja, “lele”.
“Lele” no Rio de Janeiro também é masculino de “iaiá:, sendo esta “senhora”, será aquele “senhor”, ou “chefe”.
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